Entrevista: Mauro Pumar e Rogério Schmitt, do Japão


O Consolador

Revista Semanal de Divulgação Espírita

Ano 4 - N° 185 - 21 de Novembro de 2010


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Entrevista: Mauro Pumar e Rogério Schmitt, do Japão

“Nossas crianças certamente são o futuro do Espiritismo neste país”
Uma visão panorâmica do movimento espírita no Japão, que passa por um momento auspicioso, na visão dos dois confrades que dirigem ali duas importantes instituições espíritas

Mauro Pumar, coordenador da CIMEJ - Comissão de Integração do Movimento Espírita do Japão, palestrante espírita, e Rogério Schmitt, participante da Comunhão Espírita Cristã Francisco Cândido Xavier, de Tóquio, coordenador do Projeto Esperança, que ajuda os encarcerados latinos reclusos no Japão, falam na presente entrevista sobre diversos assuntos pertinentes ao movimento espírita japonês e, em especial, sobre a participação de ambos no 6º Congresso Espírita Mundial, realizado em outubro em Valência, Espanha, e na 14ª Reunião Ordinária do Conselho Espírita Internacional, quando representaram oficialmente o Movimento Espírita do Japão.

O Consolador: Mauro, como é a sensação de estar em um evento espírita internacional representando o Japão?

Mauro: Primeiramente, gostaria de agradecer à revista O Consolador por esta oportunidade de divulgação, assim como deixar um abraço saudoso a todos os leitores amigos brasileiros, tão distantes geograficamente deste Oriente. O que posso dizer é que foi uma experiência incrível, já que nunca imaginei na minha vida estar à frente em um evento deste porte, representando o movimento espírita de um país, o que é uma responsabilidade muito grande e assusta um pouco. Assim, a primeira sensação foi de muita emoção quando me vi cercado por espíritas de todo o mundo, com um carinho todo especial pelo Japão, desejosos de saber detalhes do Movimento Espírita Japonês... É algo indescritível. Só mesmo vivendo para poder imaginar o que seja esta sensação.

O Consolador: Rogério, como é ser espírita no Japão? É muito diferente de ser espírita no Brasil? Quando e como você conheceu o Espiritismo?

Rogério: Venho de família espírita no Brasil, e quando cheguei ao Japão, assim como muitos brasileiros, deixei de frequentar um Centro Espírita, passando a ter um vislumbre pelo aspecto material da vida. Como consequência, tive muitos problemas, e a dor me fez procurar a Comunhão Espírita Cristã Francisco Candido Xavier no ano de 2002. As diferenças são muitas, pois temos um tempo muito curto para participar, o trabalho profissional nos toma de 12 a 16 horas diárias de segunda a sexta-feira, existe a barreira da língua que muitas vezes nos faz sentir impotentes, além da distância dos familiares e dos amigos, o que nos deixa depressivos... A busca pelas coisas materiais é muito grande e tudo isso contribui para o nosso afastamento de Deus, nos tornando presa fácil para os processos obsessivos. Aqui temos que ter mais força de vontade e determinação, pois não temos uma Casa Espírita em quase todas as cidades.

O Consolador: Mauro, você que já participava do Movimento Espírita do Rio de Janeiro, encontrou aqui no Japão o que imaginava?

Mauro: Mais ou menos. Os brasileiros que vêm morar aqui certamente encontram um mundo muito diferente do que imaginam, e o Espiritismo aqui não é uma exceção a esta regra. No meu caso pessoal, graças ao avanço tecnológico da divulgação pela internet, li muito e acessei muitas informações do Movimento, principalmente através das palestras que a Júlia Nezu tinha feito em sua estada no Japão e de alguns sites espíritas como o da Comunhão Espírita Cristã Francisco Cândido Xavier (www.spiritism.jp), que tive a felicidade de acessar e, lá chegando, passar a frequentar. Mas uma vez aqui, mesmo com todo esse conhecimento prévio, é realmente diferente. Não sabia que as palestras eram em português, assim como as reuniões mediúnicas, e até as coisas mais simples surpreenderam-me, desde o tirar o sapato para entrar no Centro até as preces com tradução para o japonês. O Movimento em si não é muito diferente do esperado, pois é ainda um movimento incipiente, que só agora começa a tomar força, estando bem dentro da expectativa que trazia, tendo, entretanto, encontrado aqui bastante conhecimento da Doutrina Espírita, muita amizade entre as pessoas, uma acolhida e vontade de conhecer notícias do Espiritismo no Brasil, que me surpreenderam positivamente.

O Consolador: Rogério, fale um pouco sobre as atividades espíritas de que você participa. É mais difícil realizá-las no Japão?

Rogério: Participo de varias atividades que são realizadas todos os domingos na nossa instituição, a Comunhão Espírita, como, por exemplo, o estudo das obras espíritas (O Livro dos Espíritos e O Evangelho segundo o Espiritismo). Realizamos palestras sobre temas espíritas e normalmente as traduzimos simultaneamente para o idioma japonês. Temos um trabalho com os “homeless” realizado todo último domingo de cada mês, com cerca de 450 assistidos, aos quais levamos roupas, bolinhos de arroz (onigiri), remédios e, junto, uma mensagem do Evangelho em japonês. Coordenamos o Projeto Esperança, que é um trabalho realizado com os presos de várias nacionalidades por correspondência, aos quais enviamos as obras básicas para que eles estudem, além de roupas, óculos, revistas, jornais etc. Temos também o projeto Piá, que envia roupas para as crianças do Brasil e das Filipinas. Acredito que a maior dificuldade no Japão seja o tempo, e a segunda seja a rotatividade de pessoas que permanecem pouco tempo no trabalho espírita, pois muitos voltam ao Brasil e outros mudam de cidade para buscar novos empregos.

O Consolador: Mauro, o que mais o marcou no Congresso?

Mauro: As palestras foram muito boas, desde a abertura pelo Divaldo Franco sobre o tema Somos Espíritos Imortais, até o encerramento pelo Raul Teixeira falando sobre Uma Nova Era para a Humanidade. É muito difícil destacar uma dentre tantas, mas arriscaria duas que foram aplaudidas de pé pelo auditório: a do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira falando sobre Médiuns e Mediunidade e a da Dra. Maria de La Gracia Ender abordando o tema Caridade na Visão Espírita. Mas o que mais me marcou mesmo foi ver 1.807 pessoas de 36 nacionalidades diferentes, juntas, assistindo à exibição do filme Nosso Lar. Foi como se estivéssemos vivendo naquele momento o futuro da humanidade.

O Consolador: E você, Rogério, o que destacaria da reunião do CEI?

Rogério: Foi para mim de grande valia poder participar da reunião do Conselho Espírita Internacional, pois tive muitas informações de como os 33 países que aí participaram enfrentam suas dificuldades para realizar seu trabalho. Também fiquei muito feliz com o tratamento que nos foi dado e o interesse que as pessoas demonstraram pelo Movimento Espírita Japonês, que vem crescendo e se solidificando a cada dia. Quem sabe com o auxílio do CEI e o esforço de cada um de nós, em breve possamos criar uma Federativa e talvez, daqui a alguns anos, tenhamos a chance de realizar um Congresso Espírita Mundial?!

O Consolador: Na sua visão, Mauro, quais as principais dificuldades do Movimento Espírita Japonês? Fale também um pouco sobre a Comissão de Integração do Movimento Espírita do Japão (CIMEJ).
Mauro: Penso que as barreiras da cultura e da língua são as mais difíceis. O Japão é o país das tradições e dos rituais, onde 99% da população são Xintoístas ou Budistas. Obviamente, a resistência a mudanças, que impacta sobremaneira a aceitação de uma Doutrina que chega do Ocidente, que preconiza a abolição de todos os rituais, que objetiva ser o Cristianismo redivivo de um Cristo que ainda não conhecem, terá que contar com uma boa dose de paciência e perseverança. Mas nada supera a dificuldade do idioma, sendo um trabalho imperioso e hercúleo a tradução das obras para a língua japonesa. Só para exemplificar, O Evangelho segundo o Espiritismo foi traduzido por Tomoh Sumi em seis anos de trabalho intenso... A Comissão (CIMEJ) vem exatamente para conhecer os diversos grupos existentes no Japão, integrando-os para que possam lucrar mais com a troca entre eles. Assim, cada um não precisa desbravar sozinho este terreno ainda árido, passando a contar também com a experiência dos outros. A CIMEJ foi formada em fevereiro do corrente ano, reunindo representantes de diversos grupos que se ampliam a cada visita realizada pela Caravana comemorativa do centenário de Chico Xavier – uma palestra volante sobre o tema com visitação aos diversos grupos espíritas, formalizando-se a adesão e seguida de um questionário para melhor conhecimento da instituição.

O Consolador: Rogério, descreva para nós o que vem a ser o ECOMEJ? Quando começou? Você considera que este último realizado em 24 de outubro de 2010 foi especial?

Rogério: ECOMEJ é o Encontro de Confraternização do Movimento Espírita Japonês que realizamos uma vez por ano. Este ano realmente foi especial, pois tivemos a participação de um número maior de grupos espíritas e também porque pudemos compartilhar as informações e experiências adquiridas no Congresso Espírita Mundial. Foi também a primeira vez que realizamos a transmissão do evento via internet ao vivo. Além disso, ao final do Encontro, realizamos uma reunião entre os representantes dos Grupos com vistas a impulsionar a Unificação do Movimento Espírita e darmos continuidade aos trabalhos que vêm sendo realizados por todos.

O Consolador: Descreva para nós, Mauro, como foi a reunião havida com os dirigentes das diversas Casas e Grupos, ao final do ECOMEJ, que o Rogério mencionou.

Mauro: O bom astral da reunião foi o resultado deste clima que o Movimento Espírita no Japão está vivendo neste momento, como citou o Rogério. Há uma necessidade e vontade imediata dos grupos de se reunirem e serem representados por um organismo independente, que objetive unir e criar sinergia entre os diversos espíritas no Japão. Essa reunião gerou um compromisso de maior participação das Casas e a elaboração de uma pauta de discussão para as ações que serão implementadas em 2011, assim como o agendamento das primeiras reuniões que existirão no ano. Ficou acertada também a finalização do envio e compilação dos questionários, que permitirão uma boa visão do estado atual do Movimento, e a escolha de um mecanismo de reunião virtual que possa integrar melhor os diversos grupos.

O Consolador: Rogério, vocês dois, tanto na reunião do CEI quanto no ECOMEJ, disseram que a Evangelização Infantil era fundamental para o Movimento Espírita no Japão. Por quê?
Rogério: Nossas crianças certamente são o futuro do Espiritismo neste país, pois muitos irão permanecer no Japão e estão estudando em escolas japonesas, dominando a língua e adaptando-se aos costumes. Com isso, o intercâmbio entre nossas crianças no futuro – quando serão adultos – e os japoneses vai se fazer naturalmente, se nós dermos a elas oportunidade de entrar em contato com os ensinamentos da Doutrina Espírita. É um trabalho árduo, pois a maioria das crianças não entende o idioma português, e os Evangelizadores somos nós brasileiros que não dominamos o idioma japonês, mas aos poucos vamos incutindo os ensinamentos e certamente teremos auxilio nas traduções do material infantil para podermos melhor ensinar.

O Consolador: Finalizando, Mauro, quais seriam os próximos passos para o Movimento Espírita Japonês e para você pessoalmente?

Mauro: Para o Movimento, penso que a organização é urgente e inevitável. Há necessidade de troca entre as Casas, de união de esforços para as traduções e de oficialização do funcionamento das instituições, até sob o ponto de vista legal. Conversamos muito sobre a estratégia de serem realizados Eventos de integração, contando com a colaboração de diversos palestrantes conhecidos internacionalmente, como é o caso dos que citei como destaques do Congresso, os quais, sem exceção, se mostraram disponíveis e ansiosos por virem ao Japão. Precisamos implementar um site deste novo organismo a ser criado, que dará consecução a este trabalho iniciado pela CIMEJ, permitindo esta melhor representatividade e conduzindo aqueles que buscam o Espiritismo no Japão para as instituições mais próximas de sua localidade. Estou realmente muito otimista quanto ao futuro do Espiritismo no Japão. Pessoalmente, em que pese a vontade de ficar, estarei voltando para o Brasil ou para outro país no final deste ano por questões profissionais, e creio que terei outros desafios pela frente. Se Deus assim o permitir e se os amigos japoneses quiserem, estarei sempre desejoso de colaborar, ainda que remotamente, pois graças a Jesus esta causa não nos pertence e, apesar de sermos colaboradores tão imperfeitos, contando com a misericórdia divina, sempre haverá espaço para esta troca de experiência e amor onde quer que estejamos. Aproveito para agradecer a todos pela amizade, oportunidade que me deram de participar e pelo muito que fizeram por mim nestes dois anos em que vivi em solo japonês.

O Consolador: Rogério, suas considerações finais.
Rogério: Gostaria de agradecer à revista O Consolador pela oportunidade, e também deixar aqui o meu muito obrigado aos membros do CEI e a todos os 33 países que participaram da 14ª Reunião, pelo carinho e pela atenção dispensada a nós aqui do Japão. Que Deus nosso Pai nos ilumine e que Jesus, nosso Mestre, esteja sempre presente nas nossas atividades para podermos juntos construir um futuro melhor para a humanidade. Muito obrigado e um grande abraço.

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